quarta-feira, 9 de novembro de 2011

AIDS aos 30: A estória real

AIDS aos 30: A estória real
Postado em 6 Março de 2011



O dia 5 de Junho marca o 30° aniversario do reconhecimento que uma nova doença estava matando a nossa espécie. Ela se tornaria a Grande Praga da nossa era, matando algo entre 28 a 35 milhões de seres humanos, e infectando cerca de 75 milhões com o HIV. O artigo de 5 de Junho de 1981 escrito pelo Dr. Michael Gottlieb, da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), publicado no Morbidity and Mortality Weekly Report (Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade) cometeu um erro que tem assombrado a epidemia da AIDS por três décadas.

Gottlieb observou que, curiosamente, homens jovens e saudáveis lutavam por ar e estavam morrendo de uma infecção pelo Pneumocystis carinii, um parasita que normalmente causa uma forma benigna de pneumonia. Estes jovens tinham uma outra coisa em comum: eram todos gays. O Dr. Joel Weisman, um colega de Los Angeles, tinha um grupo de jovens homens também morrendo de uma infecção habitualmente benigna, o fungo Candida albicans: outra vez, eram todos gays. Em São Francisco, o Dr. Donald Abrams estava tratando homens jovens que sofriam de grotescas e metastáticas manchas arroxeadas do sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer visto apenas em homens de idade avançada. Seus jovens pacientes eram todos gays.

Médicos ao redor do mundo chegaram à conclusões similares: este novo pesadelo era um problema homossexual. O CDC (Centro para Controle de Doenças) em Atlanta ofereceu a escassa quantia de US$ 200.000,00 para descobrir o que se passava. No Natal de 1981 esta nova doença foi intitulada de GRID, Gay-Related Immunodeficiency Disease – Doença da Imunodeficiência Relacionada aos Gays.

Presumir que essa doença estava unicamente associada à homossexualidade foi um trágico erro que vai assombrar a história para sempre. Este erro deu margem para que o então presidente conservador Ronald Reagan e os mais importantes lideres mundiais dessem as costas para uma praga que explodia. Pessoas têm morrido de AIDS em todo o mundo, mas como resultado de encontros heterossexuais ou injeção de narcóticos ou remédios por meio de agulhas contaminadas. O Dr. Fred Siegel tratou uma imigrante da Republica Dominicana no Hospital Monte Sinai, em Nova York em 1979: ela morreu de AIDS antes da doença ganhar um nome. Em 1981 o Dr. Henry Masur tinha um grupo de 11 pacientes com GRID em seu consultório, metade deles heterossexuais ou usuários de drogas injetáveis. No mesmo ano, uma prostituta codinome Mrs. Profit deu à luz a gêmeos, e ambos morreram de AIDS no Hospital Pediátrico de São Francisco. Os doutores Margaret Fischl, em Miami, e Sheldon Landesman, no King's County Hospital, no Brooklyn, tinham consultórios que ficaram abarrotados de mulheres e crianças que morriam, todas do Haiti.

Foi apenas em 1982 que uma pequena equipe do CDC tropeçou na pista mais vital desta epidemia fora de controle: a morte de hemofílicos. A hemofilia é uma doença sanguínea hereditária ligada ao cromossomo Y, encontrada apenas em homens. A forma mais comum da doença torna os rapazes incapazes de produzir a crucial proteína do coágulo, o Fator VIII ou IX. Sem estes fatores, um joelho arranhado, uma mordida de mosquito ou um sangramento nasal pode ser letal. Uma vez que o sangramento comece, ele pode não cessar jamais. Em 1960, cientistas descobriram uma maneira de extrair estes fatores do sangue normal, criando concentrados que os hemofílicos podiam injetar quando se machucassem, salvando suas vidas. Em 1973 a Fundação Nacional para a Hemofilia trabalhou com o governo americano para criar uma rede de 141 centros de tratamento de Fator. E na metade da década de 1970, o desdobramento desta descoberta milagrosa permitiu que a primeira geração de sobreviventes hemofílicos chegasse à idade adulta tendo sobrevivido aos cortes e arranhões da infância.

Porém, para permanecerem vivos, estes hemofílicos necessitavam periódicas injeções de Fator VIII ou IX: este foi o grande crime da nossa praga moderna. As proteínas do Fator são tão efetivas que apenas uma rara quantidade delas pode ser encontrada em meio litro de sangue normal. Para fazer uma dose do concentrado de Fator, as companhias farmacêuticas necessitavam de milhares de litros de sangue, e cada dose de Fator continha, em média, o sangue de 13.000 pessoas diferentes. Naquela época, um menino com hemofilia que alcançasse a idade adulta, teria sido exposto ao sangue de mais de 100 milhões de pessoas. A taxa média de exposição de um usuário do Fator VIII era de 3 milhões de pessoas por ano.

Nós sabíamos que o vírus estava lá. Uma amostra de um lote de Fator VIII foi guardada e testada uma década depois. Ela estava contaminada com o HIV e havia sido injetada em 2.300 meninos americanos em 1978. Em 1981, mais da metade de todos os hemofílicos nos Estados Unidos estavam infectados com o HIV. Os fatores sanguíneos fabricados por companhias americanas, especialmente os da Baxter e de suas filiais estrangeiras, foram vendidos em todo o mundo. Os escândalos atingiram Ministérios em alguns países, causando prejuízos de centenas de milhares de dólares em processos contra as fábricas, bancos de sangue e agencias governamentais.

O HIV provavelmente esteve nos sistemas americanos de transfusão de sangue por décadas, mas em níveis tão extremamente raros que, ao ser transmitido para pacientes já adoecidos, não conseguiu causar uma cadeia de infecção capaz de chamar a atenção da Saúde Pública. Foi somente quando o sistema de tratamento dos hemofílicos foi criado e implementado em larga escala para rapazes, muitos deles sexualmente ativos e alguns deles usuários de drogas injetáveis, que a praga realmente explodiu. A equipe do CDC constatou isso em Julho de 1982, mas os bancos de sangue e a indústria dos derivados sanguíneos impediram qualquer tentativa para mandados de inspeção para viroses até 1985. E mesmo depois que os produtos contaminados foram banidos dos Estados Unidos, os produtores, apesar de saberem, continuaram a vender e exportar para o mundo todo Fatores contaminados com HIV e Hepatites. Métodos eficazes de tratamento do sangue para matar o HIV só foram desenvolvidos em 1987, baseados em métodos experimentais utilizados desde a Segunda Guerra.

Este legado infame assombra os esforços da prevenção ao HIV até hoje. Em vez de GRID, a nomenclatura da epidemia em 1981 teria sido melhor nomeada como BRID - Blood-Related Immunodeficiency Disease – Doença da Imunodeficiência Relacionada ao Sangue. Se hoje em dia todos os esforços para o tratamento e prevenção da AIDS fossem focados na idéia do BRID, nós não teríamos este pesadelo vergonhoso que agora testemunhamos. Se tivéssemos chamado esta praga pelo nome correto de BRID, talvez não existissem centenas de vilarejos chineses onde metade da população adulta está infectada com o HIV, resultado das injeções de sangue na década de 1990. Governos do leste africano teriam sido mais agressivos para enfrentar o crescente número de usuários de heroína na região, admitindo que gotículas de sangue contaminados pelo HIV espreitavam nas agulhas utilizadas para os narcóticos. O mundo teria criticado ruidosamente os antigos países da URSS, onde a maioria deles, mesmo em 2011, ainda negligenciam a troca de agulhas para usuários de drogas injetáveis, assim como o tratamento de desintoxicação destes usuários, tais como com a metadona, considerada ilegal.

Inacreditavelmente, ainda hoje muitos países não testam adequadamente seus bancos de sangue. Na verdade, sangue é um negócio muito lucrativo, atraindo criminosos que vendem produtos adulterados e PAGAM doadores muitos dos quais são alcoólatras ou usuários de narcóticos em busca de um dinheiro rápido.

Neste incerto aniversário de 30 anos da nossa praga do século 21, os delegados que se encontrarão esta semana na sede da ONU em Nova York para debater a epidemia da AIDS, fariam melhor se considerassem o termo BRID. Eles estarão sob pressão para fornecer medicamentos aos já infectados com o HIV. Nós apoiamos fortemente a expansão do fornecimento de medicamentos anti-HIV a todas as pessoas infectadas no mundo. Mas lembrem-se que se hoje em dia um país tem mais de 20% de seus jovens infectados com o HIV – como a África do Sul – o vírus continuará à espreita em sangues contaminados, derivados sanguíneos, agulhas contaminadas e equipamentos médicos inadequadamente esterilizados.

Pense BRID, ou esta terrível história continuará se repetindo. De novo, e novamente, e uma vez mais.


Tradução livre de Daniel Barros e Sergio Funari




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